“Temos uma geração de crianças que já está a pensar no contexto da tecnologia”

Bastante empolgada com o que vê em termos de transformação digital em Moçambique e com o potencial existente, a directora do Banco Mundial em Moçambique, Idah Pswarayi Riddihough, alerta que é preciso dar um acompanhamento às crianças para singrarem, com o tempo, no mundo tecnológico, não só como criadoras, mas também como utilizadoras. Em entrevista concedida à Moztech, a responsável explica o seu posicionamento.

 Como é que vê a importância da economia de transformação digital e como é que essa transformação ocorre em Moçambique, em particular, de acordo com a sua experiência pelo mundo?

Penso que no mundo actual não existe algo mais importante do que a transformação digital que está a acontecer ao nosso redor. Penso que seria justo afirmar que a transformação digital está a transformar a economia global e basicamente, a pensar nisso, ela está a mudar a forma como aprendemos, a forma como trabalhamos, socializamos, a forma como interagimos com os nossos serviços, tanto no sector privado ou público. Permite-me tomar como exemplo alguns números que gostaria de partilhar consigo. Em 2016, a transformação da economia digital tinha o valor de cerca de 11.5 triliões de dólares, que constitui cerca de 15.5 por cento da economia global. Espera-se que este número aumente para 25 por cento em menos de uma década, portanto, podes imaginar a transformação que está a acontecer. Agora tomemos um exemplo de onde a transformação digital tem sido, tão poderosa, é na componente de dinheiro móvel. Acho que olhando para a África Subsaariana e vendo a transformação que está a acontecer, mesmo no caso do comércio electrónico; hoje 21 por cento das contas na África Subsaariana focalizam nas finanças e na inclusão digital e pensando sobre isso tudo, apenas nos últimos cinco anos tem havido um aumento de mais 10 vezes em toda região, no que concerne ao fornecimento de novos intermediários tais como incubadores e aceleradores. A conversa está a mudar, África era o receptor de toda a tecnologia que vinha para cá, agora desenvolvemos e fornecemos a nova tecnologia, o que é bastante agradável quando pensamos na economia digital. Em África, 21 porcento da conectividade… como está a conectividade em Moçambique? Moçambique está entre esses países que evidenciam esforços para o avanço em termos de transformação digital e da conectividade em particular, conforme disse, no que concerne aos serviços móveis, pensando sobre os últimos cinco anos, apenas os últimos cinco anos na África Subsaariana, mais de 400 incubadores apareceram e tornaram-se activos nessa região. Em Moçambique, hoje quando olhamos para a tecnologia digital, há uma estimativa de que pelo menos 370 milhões de dólares, o que é aproximadamente, 2,7 porcento do PIB do país, vem desse sector; 40 por cento das empresas registadas em Moçambique têm as suas próprias páginas web; a transformação digital e a forma de penetração caminham em paralelo e no final do dia… e vou concluir a tua primeira questão neste ponto em particular, há muito que está acontecer, há muitos serviços que estão a aparecer, África está a começar a liderar, mas na realidade se pensar em apenas 40 por cento da conectividade existente hoje, significa que ainda temos um caminho longo a percorrer, portanto é um campo interessante para fazermos parte dele e contribuirmos para o mesmo e também nos beneficiarmos dele neste momento.

Apesar de haver esses resultados positivos mencionados, acha que essa transformação digital tem um impacto no estilo de vida das pessoas?

Sim, definitivamente tem. Sabes, sobre esse ponto, falemos sobre COVID-19, acho que este é o tema do momento, o que a COVID-19 fez? A COVID-19 reduziu algo natural em nós os humanos, a interacção cotidiana, entrar no gabinete de alguém, conversar, colocar directamente uma questão ao invés de mandar por e-mail, na realidade os humanos baseiam-se na comunicação, o que aconteceu? A comunicação avançou para as plataformas electrónicas, hoje, o Zoom que é um sistema que se tornou num substantivo, porquê? Porque é tanto usado ao ponto de se ter tornado parte da nossa conversa diária, mas na verdade o que também faz? Permite que as crianças continuem a ter acesso à escola, permite as pessoas a trabalharem, mesmo estando em casa, manterem-se seguras. No contexto da criação da vacina e conforme todos vimos, está a ter um avanço rápido, e porque está a ter esse avanço rápido? Porque hoje em dia os cientistas não precisam de estar na mesma sala, eles podem se conectar um com o outro, partilhar experiências, partilhar a forma de fazer coisas e ter um impacto na vida cotidiana, penso que olhando para o impacto a partir do nível de família até ao nível individual, o que quero dizer é que o tipo de impacto varia, dependendo da localização da pessoa, mas será que tem impacto definitivamente que tem?

Entendemos que construir um ecossistema digitalmente favorável na edução, ciência, engenharia, na matemática, bem como a massificação e adopção da tecnologia, principalmente, entre jovens é bastante importante para os países africanos. Qual é o papel que o Banco Mundial desempenha neste processo?

Sabes, a questão deste tema, aprendizagem, que é crucial para a ciência e inovação, às vezes gostamos de falar pouco disso, como algo a acrescentar, mas a realidade da coisa é que temos que ter a qualidade e acesso ao ensino em África logo no princípio e depois precisamos de focalizar nas disciplinas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática), o que o Banco Mundial têm estado a fazer é tentar ver como é que podemos criar o paralelismo de se obter a educação básica para as crianças e ao mesmo tempo focalizando nas disciplinas STEM, também sabemos que as disciplinas STEM, não são uma área em que as mulheres e raparigas se sintam realmente confortáveis de seguir. A questão é, como é que podemos ter motivação e incentivos da inovação científica para que não seja algo para apenas um lado do género, mas para ambos lados do género. Procuramos ver como é que o currículo está e como é que podemos melhorá-lo para as disciplinas de ciência e tecnologia, como é que também poderemos melhorar o conhecimento dos professores, não apenas das ciências, mas como criar um impacto dessa ciência e o desejo da aprendizagem das disciplinas de ciências por parte dos estudantes. Agora sabemos que há evidências de que quanto mais professoras tivermos, pode se alcançar muitos estudantes e se diminuir a taxa de desistências que vimos em crianças a partir dos doze anos para cima. Em acréscimo a isso, quero dizer isso porque é importante, sabes, a questão em volta da ciência não é acerca da aquisição do conhecimento, mas é fazer com que o mesmo seja activo, tem que ver com ciência versus competição, fazer a troca de informação e o Banco Mundial está a tentar obter a maioria dessas diferentes componentes, aprendizagem básica, aprendizagem STEM, a motivação, os incentivos, bem como o ângulo de ensino, tudo isso é o que importa, as disciplinas STEM, mas também o sucesso individual no campo das ciências.

Muito bem, a educação, ciência, tecnologia, engenharia parecem ser bastante onerosos para vários países africanos, a questão é: muitos países africanos não se dispõem de verbas suficientes para apoiarem programas de educação e ciência, qual é a sua percepção sobre isto?

 Penso que no final do dia, todas disciplinas são críticas, conforme disse e repito, é bom focalizar na ciência e tecnologia, mas também é importante focalizar em todo sistema de educação, quando diz oneroso, penso que talvez estejas a focalizar em provavelmente coisas como robótica ou laboratórios de alta tecnologia; sabes, a COVID-19 fez algo que acho que basicamente vai mudar todo o sistema de edução por muito tempo. Eu própria tenho uma filha que está na universidade a seguir ciências, hoje a maioria daquilo que ela faz é feito online, portanto, aquele custo de ter que fazer as coisas fisicamente agora está a mudar para plataformas receptivas e acessíveis. Acho que o que precisamos fazer em África é focalizarmos em como podemos aceder esses serviços, acho que há algo que devemos discutir quando falamos sobre o acesso à educação, principalmente, para as crianças que se encontram em situações de necessidades, é garantirmos que possam ter acesso à energia, garantirmos que possam ter acesso à internet porque sem isso será bastante difícil em qualquer sítio, então, quais são as opções? Podemos usar a rádio onde não tivermos serviços de internet adequados. No final do dia, acho que a ideia de que isto é bastante oneroso para África é realmente uma área para explorarmos alternativas que irão permitir África aceder esses serviços sem ter que pagar uma factura elevada e a última coisa que gostaria de dizer é que o Banco Mundial não funciona isoladamente nesta área, temos vários parceiros de desenvolvimento que trabalham connosco, não fazemos apenas a terceirização das finanças, mas fazemos a terceirização das ideias, exemplos e oportunidades para os estudantes se conectarem com outros estudantes em outros locais e deste modo reduzindo o custo inicial que referiu.

Uma das áreas prioritárias da economia digital é apoiar a inclusão financeira, principalmente, nas operações de pagamento digital. Na sua opinião, como é que isso poderá ser materializado em Moçambique e qual é a contribuição feita pelo Banco Mundial no que a isto diz respeito?

Acho que é também fundamental que se compreenda porquê a inclusão financeira é importante. Quero dizer, há pouco tempo falavas do custo da educação, basicamente, o que é difícil para as pessoas com renda baixa é a capacidade de ter acesso às finanças, pagar as despesas escolares e assegurar que possam conseguir a melhor educação possível para os seus filhos, em termos de tecnologia, e conforme indiquei antes, tendo uma taxa de penetração em Moçambique, que por sinal está entre as mais elevadas de África Subsaariana, em apenas 40 por cento e alguma coisa, o que significa que 40 por cento da população que está conectada tem o acesso aos serviços financeiros, o que acontece com os que não têm acesso? É nisso que precisamos focalizar, para tornar esse exemplo mais claro, permita-me focalizar naquilo que o Banco Mundial tem estado a apoiar no trabalho com o governo. A primeira coisa é que temos estado a focalizar em três pilares em termos de inclusão financeira: o primeiro é o acesso e uso de serviços financeiros; o segundo consiste em fortalecer as infra-estruturas financeiras; e o terceiro tem a ver com a projecção do consumidor e a literacia financeira. A ideia desses três pilares é de responder alguns constrangimentos comuns que vimos na área de inclusão financeira. Deixe-me mencionar dois ou três: o primeiro é que conforme sabemos, para se abrir uma conta bancária a pessoa tem que ter um BI e muita gente não têm BI, não está registada, não existe um banco de dados em que eles possam dar ao banco para a sua identificação, essa é uma questão tanto para o consumidor assim como para o banco. A ideia é de que focalizemos nisso, corrijamos essa situação; o segundo factor mais importante consiste em criar uma plataforma tecnológica que irá ajudar na transferência monetária das pessoas, mesmo se não poder ir ao banco mas se eu conseguir ter acesso a este serviço através do meu telefone, podendo ser pago onde estiver e hoje em dia, ao pensar que a maioria dos pagamentos do governo para as pessoas é feita através do banco, o que significa que tenho que sair da minha aldeia, pagar transporte para que eu possa ter acesso às finanças, isso é algo que gostaríamos de fazer com que seja irrelevante, não precisas sair de casa para que sejas pago ou para

mas precisas de estar registado, precisas de ter um BI e tens que ser reconhecível; e a última parte é sermos capazes de criar um sistema que não é apenas orientado à oferta mas sim à demanda, dando opções às pessoas para estarem em altura de decidir, quero ir ao banco para obter o meu dinheiro, quero ser pago através do Mpesa, quero ser pago no meu telefone ou quero usar qualquer outro sistema e incorporar. Tudo isso, passa por ensinar as pessoas a usarem todos esses serviços, é dessa forma que se cria um serviço resiliente que vai para além disso, porque se uma parte do sistema falha, os outros sistemas continuarão a funcionar, a inclusão tem a ver com isso.

As instituições como o Banco Mundial trabalham com o governo de Moçambique em várias áreas, pode detalhadamente explicar as intervenções do Banco Mundial na expansão do uso das tecnologias digitais para melhorar a explicação e o processo da elaboração das políticas públicas do país?

Penso que isso é algo que está bem próximo dos nossos corações no Banco Mundial. Uma melhor planificação significa melhor implementação e melhores resultados e no final do dia significa melhores realizações, portanto, sempre que temos oportunidade de apoiar o governo ou de apoiar outros clientes que trabalham connosco para assegurarmos que temos essa linha de base, ficamos sempre com vontade de fazer isso e no caso de Moçambique apoiamos a Plataforma Nacional GIS Multissectorial Integrada, que é uma plataforma que contém informação geográfica com capacidade de demonstrar os dados, dependendo do que for a demanda. Porque perguntou sobre algumas especificidades, deixe-me focalizar em como esse banco de dados tem sido usado, acho que tu e muito dos telespectadores estão cientes do Plano Quinquenal, elaborado pelo governo que irá focalizar nos anos 2020-2024, este plano nacional foi baseado nos dados existentes neste sistema integrado GIS, no final do dia, também trabalhamos com sectores específicos para fazerem o uso deste tipo de informação, deixe-me dar alguns exemplos: a ANE, conforme sabem, deve focalizar na planificação das estradas de toda dimensão no país, não há uma boa forma de se fazer isso, se não for através do sistema nacional integrado. Isso pode ser visto ao nível nacional, provincial, até ao nível do bairro e o que te permite fazer? Permite priorizar quais são as estradas frequentemente usadas, quais estradas com probabilidade de serem danificadas com frequência e deste modo alocar o dinheiro, mas também vimos o Ministério da Educação a fazer o uso do sistema para mapear onde as incidências da COVID-19 poderiam, provavelmente, afectar mais as escolas e o sistema de educação, portanto, fazer a planificação da reabertura das escolas com o uso de informação real e dados reais para ser capaz de responder a isto.

O último aspecto que gostaria de aflorar é o uso da informação pelo Ministério da Saúde para identificar os pontos de foque de transmissão da COVID-19, não apenas na cidade de Maputo, mas em todo país e depois dizer, se precisarmos de ter certa intervenção e apoio é daqui onde devemos começar; e sabes o que na verdade penso? Na verdade penso que este banco de dados será importante em particular para a vacinação que se aproxima, conforme vemos, muitos países estão a preparar-se para a vacinação, onde fazer a vacinação? Obviamente, vai querer fazer naquelas zonas em que as pessoas são mais vulneráveis, para reduzir a contaminação contínua, protegendo uma grande parte da comunidade, portanto esse banco de dados é mais do que uma plataforma, mas realmente um mecanismo de planificação, política e reforma que te permitem assegurar que está a prover os melhores serviços para os seus cidadãos no momento correcto, mas também trazendo a bordo outros intervenientes, tais como o sector privado, organizações não-governamentais, parceiros tradicionais, todos a se juntarem para obter o melhor resultado possível.

Dado ao facto de que Moçambique ainda enfrentar vários desafios em diferentes áreas e em algumas dessas áreas, o Banco Mundial ajuda ou coopera com o nosso país. Quando falamos sobre a indústria, inovação e infra-estruturas, quais são os principais pontos fortes, fraquezas, ameaças e oportunidades que Moçambique tem?

Bem, acho que pensando nessas coisas, isto é, um desafio para vários países, não apenas em África, mas para além dos países de que estamos a falar, comecemos por falar de oportunidade porque é sempre bom colocar as boas coisas em perspectiva. Mencionei algumas, se houver capacidade de se planificar a tempo e depois priorizar a sua orçamentação, as finanças, a sua terceirização, tendo em conta o impacto da COVID-19 porque conforme podemos ver, a COVID-19 não tem fronteiras, portanto, não tem a ver com o bairro, província, país ou vizinho. Quanto maior for a plataforma, melhor será para que fim se possa usar. Qual é o desafio? Existem alguns desafios, estávamos há pouco tempo a falar da inclusão financeira, mas a inclusão financeira também precisa de estar na base de um sistema educacional adequado, em particular, não apenas para aqueles que vão inovar e nos dar nova tecnologia mas para aqueles que vão usar a tecnologia, enquanto a transformação digital vai ocorrendo e a uma velocidade muito rápida, fazendo com que as pessoas se sintam confortáveis com a tecnologia não é algo que vai acontecer de noite para o dia. Portanto, este é um dos desafios que precisamos de olhar e ao mesmo tempo este desafio pode ser transformado em oportunidade, porquê? Porque as crianças de hoje… apenas precisas de olhar para uma criança de cinco, seis anos de idade e ver o quão ágil é no uso do seu telefone, como faz o uso de aplicativos que tu olhas como adulto e não tens ideia de como usar, o que isso significa? Temos uma geração de crianças que já estão a pensar no contexto da tecnologia e elas podem singrar na tecnologia; o ponto que estou a tentar trazer é que certamente não existe um modelo único, dependendo do sector, da área ou do contexto em que pensas, tens que estar ciente de que as pessoas usam tecnologia de forma diferente, as pessoas desejam e têm interesse no uso da tecnologia de forma diferente, portanto é uma questão de onde está a linha, é extra equilíbrio, não há como tentar colocar numa única caixa, porque conforme podes ver não é viável e não há motivos para nós forçarmos isso, mas temos que trabalhar com isso e nos beneficiarmos tanto quanto possível.

Conforme anteriormente mencionou, boa planificação, a planificação de boas políticas públicas converte-se em bons resultados. Um dos desafios enfrentados por Moçambique e por outros países Africanos é a boa governação, a minha questão é: como alcançar boa governação, tendo em conta a realidade de vários países africanos que ainda enfrentam dificuldades de vária ordem e a maioria desses desafios não estão plenamente ultrapassados. Como ter uma boa governação no que concerne a boa implementação de políticas públicas, a elaboração das políticas, qualidade da elaboração das políticas?

 Olha, acho que quando falamos sobre boa governação, governação é uma grande palavra, pode ser usada de diferentes formas, mas tendo em conta que estamos a falar da tecnologia e da transformação digital, porquê não falarmos da governação neste contexto, porque isso é o mais importante e falemos também do ponto que colocaste antes que é a inclusão. Se souberes quanto tens numa conta bancária, então claramente poderás saber se existe um problema, reconhecendo que o avanço rápido da tecnologia também tem as suas fragilidades e essas fragilidades observamos em todo mundo, não existem somente em Moçambique, o facto de que se hoje tiveres um cartão de crédito, já que mais uma vez estamos a falar da inclusão financeira, é melhor que o tenha com um código PIN, porque o código é algo exclusivo teu, o cartão de crédito não é exclusivo, é oferecido pelo banco e podes usá-lo, a dificuldade da boa governação, acho que sempre oiço essa dicotomia, não existem muitas questões relacionadas com a governação do que com a transformação digital, qual é a questão? Imagina que não tenhas qualquer tipo de tecnologia e não te subscreves às mudanças que estão acontecer, não tenho a certeza se terás ao teu dispor os serviços que gostarias de ver no contexto da inclusão financeira, acho que o que a tecnologia está a fazer, e podemos ver isso e na verdade este é um dos contextos, lembra-se dos três pilares que mencionei, tem também a ver com a criação de uma plataforma transparente onde as pessoas poderão ver o que está disponível, quanto dinheiro está na suas contas e quando ocorre uma despesa  que não seja do seu conhecimento, poderão voltar à plataforma e verificar, é um conjunto de diferentes factores e não acho que seja correcto equiparar questões de governação com a transformação digital, mas acho que podemos fazer de uma forma contrária e dizermos como é que podemos melhor usar a transformação digital que está a acontecer hoje em dia, para melhorarmos o acesso das pessoas, melhorarmos o seu conhecimento em como ela poderá melhorar as suas vidas e como é que também poderá melhorar a vida do governo; o que quero dizer com isso, sabendo onde é que o seu povo se encontra, se souber quais são as pessoas que precisam de serviços, então poderás melhor organizar os serviços, isto é que é boa governação, esta é uma boa prestação de serviços para a população e para os cidadãos e esses poderão usar a mesma plataforma para demonstrarem onde é que os serviços não são adequados, onde gostariam de ter mais serviços, portanto, torna-se um processo interactivo de duas direcções, que tem muito mais benefícios do que focalizar numa única direcção em relação a essa questão.

A actual reforma do sector público introduziu algumas inovações em termos do acesso aos serviços públicos. Como é que avalia essas inovações, essas reformas, em termos do acesso?

Acho que esta é realmente uma boa questão, deixe-me dar um exemplo, falar um pouco do meu próprio país, eu sou Zimbabwiana, onde obter uma carta de condução era um processo muito longo, requeria que passasse não sei por quantos gabinetes porque tudo estava baseado no papel, hoje se quiseres renovar a sua carta de condução, literalmente te apresentas num único gabinete, lá escrevem o teu nome, eles são capazes de verificar e saberem quem tu és, devido o conjunto de dados biométricos que mostram quem tu és, isto é algo que o governo já começou a fazer, e tem sido um exercício poderoso, existir um registo e saber quem são as pessoas, em particular para o contexto de Cabo Delgado, onde se tenta prover serviços e apoiar pessoas que enfrentam dificuldades em termos do acesso às finanças; falas sobre reformas, quais são as reformas críticas que nos levaram a este ponto? Se houvesse possibilidade para as pessoas irem abrir contas bancárias enquanto se processa os seus Bilhetes de Identidade, desta forma as pessoas não teriam que sofrer à espera por muito tempo para terem acesso à transferência de valores monetários ou ao acesso às finanças, esta é uma reforma significativa, não se trata de uma mera reforma mas sim de uma reforma com o propósito de prestar serviços específicos para um sector da comunidade, da população com maiores necessidades, este é o tipo de reforma a que me refiro.

De uma forma geral, acha que Moçambique está a dar passos correctos para avançar para essa industrialização, em termos de investimento em infra-estruturas? Qual é a visão do Banco Mundial em termos de como é que o governo está a trabalhar com vista a prover melhores serviços para a população, apesar de todos esses tipos de desafios que ainda existem no nosso país em particular, mas olhando para o continente Africano, mesmo para Zimbabué por exemplo, que é nosso vizinho, que tem boa experiência em termos de prover acesso aos serviços públicos; sabemos que a economia passa por certos constrangimentos, mas são questões económicas que não iremos profundamente falar delas, mas gostaria de ouvir o seu ponto de vista sobre esses desafios que continuamos a enfrentar, não apenas em Moçambique mas em todo continente africano.

Esta é uma boa questão, mas permita-me colocar-te uma questão, deixe-me partilhar algumas cifras e depois vai-me dizer o que acha, está bem? Lembre-se que falei que para a África Subsaariana, a taxa de penetração da telefonia móvel, como exemplo, é de 21 por cento, para o caso de Moçambique está entre 42 a 43 por cento e é considerado entre os melhores em termos de penetração na África Subsaariana e os segundos dados a colocar é que um dos inquéritos realizados pelas Nações Unidas em 2018, constatou que Moçambique era um dos melhores países em termos da capacidade da população de ter acesso às compras online e de facto constataram… se é que me recordo correctamente que 15 por cento da população de 15 anos de idade para cima consegue fazer as suas compras a partir das suas mesas ou nas suas casas, porquê isso é importante? No mundo actual da COVID-19, o objectivo é reduzir o número de pessoas que entram em contacto uma com outra, imagina expandir essa capacidade de fazer com que as pessoas consigam fazer compras numa plataforma, iria aumentar o comércio, aumentar a ideia das pessoas poderem fazer compras sem medo, iria reduzir o número de infecções de coronavírus, poderás continuar a mencionar mais vantagens desta cadeia. Agora, será que Moçambique é perfeito? Será que alcançou o melhor? Nenhum país já alcançou; se pensares no facto de que em 2016, 11.5 triliões foi o que se conseguiu com a transformação digital, em menos de dez anos será 25 por cento, a partir dos 15 por cento, o que isso nos diz? Isto diz-nos que este sector está a avançar a uma velocidade muito rápida, portanto, de nenhuma forma alguém estará na dianteira disso, de facto não queremos estar na dianteira, queremos ser capazes de ter opções, usarmos essas opções para o melhor do nosso conhecimento, para nós, Banco Mundial, procuramos ver o que aprendemos dos outros países que possamos trazer aqui, mas também o que estamos a aprender de Moçambique que possamos levar para outros lugares, portanto, a notícia não é sempre má, sei que às vezes as más notícias fazem manchetes, mas na realidade sempre penso que para a África Subsaariana, lembra-se que te falei de 400 incubadoras… lembro dum passado recente quando África era receptor de qualquer incubadora que existisse, nós não fazíamos incubação, o que de facto fazíamos era exportar os nossos talentos para outros locais para fazerem inovação e fazer essas incubações, hoje somos capazes de reter, conseguimos incentivá-los, é nisto que todos precisamos de nos focalizar, colocarmos dinheiro e capacidade de envidarmos esforços e termos mais para que o continente possa se beneficiar e o mundo também possa se beneficiar disso. Não queremos fazer apenas para o país ou para nosso continente, queremos fazer para o mundo porque fazemos parte da economia mundial no que concerne à transformação digital.

Então significa que apesar das dificuldades existentes, a expectativa do Banco Mundial é de que por exemplo, Moçambique e a África em geral irão obter bons resultados num futuro breve, é essa conclusão que podemos ter?

Acho que os resultados já estão aqui, acho que vemo-los, é a partir de coisas básicas como, por exemplo, hoje em vários elevadores não precisas de tocar o botão do elevador, quando é que isso apareceu? Não se trata de uma tecnologia antiga, esta é uma nova tecnologia, hoje os cartões de crédito, não precisas de tocar, não precisas de dar a pessoa tocar e inserir … isto pode ser feito, hoje poderás estar numa zona remota em qualquer país e continuares a receber o seu pagamento e efectuares pagamentos das tuas contas, a tecnologia não irá esperar por ti, está aqui, já está acontecendo, conforme dizia precisamos de mais tecnologia e gostaríamos de apoiar mais a tecnologia, como banco somos apenas um actor dentre vários, não nos esqueçamos do sector privado, que é o que na realidade está a incentivar, a fazer a incubação, está a realizar várias pesquisas, eles são parceiros críticos, se é que não são os parceiros mais importantes, é por isso que o Banco Mundial vai ao encontro do sector privado cada vez mais e pergunta, que tipo de habilidades precisam se quiserem continuar a trabalhar nesta área, que tipo de disciplinas os estudantes devem aprender, quando e com que antecedência devem começar a aprender essas disciplinas? O que é que precisamos de incluir no nosso currículo? O que precisamos de ensinar aos professores que leccionam essas disciplinas? É uma cadeia, tem a ver com o estar preparado, tem a ver com a percepção da tecnologia e depois participar, eu estou realmente bastante empolgada no que vejo sobre a transformação digital em Moçambique e em vários países em África, acho que aqui existe o verdadeiro futuro, existe a real potência para a região ser vencedora em vários aspectos de transformação digital.

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