Há sete meses, foram identificados os dois primeiros casos de covid-19 em Portugal. Desde aí, o país tem mudado profundamente.

Ao abrigo do estado de emergência, fecharam-se as portas das casas a 19 de março para só voltarem a abrir 45 dias depois, no fim do confinamento.

Dentro delas, gerou-se medo, mas também criatividade. As pessoas procuraram refúgios e superaram-se. Nalguns casos, o ritmo do coração baixou ao compasso do isolamento.

Falámos com pessoas dos 3 aos 90 anos. Nas cidades, no campo, no interior e no litoral. Fomos ver o que mudou inclusive na vida dos animais – e até das pedras. Em todos eles, há sons que mudaram.

Este é o último episódio de uma viagem em que fomos percebendo que pelo país as pessoas lidaram com o medo de maneiras diferentes:

A covid-19 trouxe o medo, e o que era mais óbvio na vida rapidamente passou a incerto.

E por isso estranhámos quando a dado momento nos disseram que há uma terra em Portugal onde a sensação é de que não se passou nada. A expressão foi mesmo “aqui estamos no paraíso”. Tínhamos de lá ir para perceber. Encontrámos uma espécie de “aldeia do Astérix”. A  “druida” Luísa Falcão, dona do minimercado do largo da igreja, é uma referência na terra. Não está muito alarmada com a pandemia e faz a vida dela tranquila, mas tem noção dos riscos e não deixa nenhum aldeão entrar na sua loja sem pôr a máscara primeiro.

É por isso que muitas vezes Bartolomeu fica cá fora. O “Obélix” da Mata não caiu no caldeirão da poção mágica, mas já andou na guerra e “pelo mundo todo” e, garante, o vírus na Mata não entra. O seu companheiro, Francisco Falcão, marido da D. Luísa, está longe de se parecer com o pequeno Astérix, mas lá se vai rindo com o amigo, enquanto o chama à razão.

Se na Mata nos disseram que não mudou nada, na Batalha tudo mudou. Ali, onde iniciámos o nosso roteiro, no preciso dia em que se assinalavam os 635 anos da batalha de Aljubarrota – que o mosteiro homenageia – ouvimos falar do “silêncio das pedras mortas”.

No dia da nossa visita, o Mosteiro já estava aberto ao público. Não encontrámos o silêncio absoluto de que nos falaram, mas conhecemos a história de Luís Ceiça, o funcionário mais antigo da casa. Ao longo dos últimos 40 anos, Luís Ceiça tirou milhares de fotografias de momentos únicos dentro do Mosteiro. Casamentos, concertos, visitas de grandes personalidades e também das obras que foram sendo feitas. Mal sabia ele que as fotografias que tirou a uns andaimes nos anos 80 haveriam de ser úteis para ajudar a localizar uns canos, quando há pouco tempo foi necessário fazer umas reparações. Agora, a coleção de fotos de Luís Ceiça vai ser publicada em livro – uma boa notícia num ano tão inimaginável e a prova de que todos os detalhes contam, nomeadamente aqueles em que mal reparamos quando a vida corre normal.

Começámos este texto por falar daquilo que o medo, ou a falta dele, fez de nós durante os meses com as portas fechadas. Com o medo vem a superação – e no Montijo encontrámos um exemplo do que isso significa. É o caso da Sílvia Mocho e do André Catalão, um casal jovem que tem um restaurante numa das principais avenidas da cidade. Um dos medos da Sílvia era o de deixar fracassar este mesmo restaurante, um projeto que lhe foi deixado pelo pai quando morreu há dois anos. À semelhança de muitos outros restaurantes pelo país, o Ti Martinho teve de se virar para o takeaway e para as entregas ao domicílio para sobreviver. E sobreviveu. O cozido à portuguesa foi um sucesso – chegaram a sair 100 doses ao fim de semana. Não foi o único desafio. No início do confinamento, Sílvia e André descobriram que estão à espera do primeiro filho. A alegria superou o medo, mesmo que para Sílvia o cheiro do cozido, durante as primeiras semanas de gravidez, tenha sido mais forte que tudo o resto.

Enquanto caminhávamos pelas ruas do centro do Montijo, encontrámos a história que deu origem àquele que é provavelmente o episódio mais frenético da série. Em terra de touros, é difícil que quem lá vive não sentisse a falta da animação que enche as ruas entre junho e julho. Não há festas e não há touros? Há bicicletas com chifres no lugar do guiador e verdadeiros campeões de uma nova emoção que o distanciamento não travou.

E foi assim que conhecemos o Joaquim da Maia, figura mítica da cidade, e o neto Pedro, que em pleno bar de convívio da castiça tertúlia “O Aldeano” nos contaram como um grupo de amigos conseguiu reinventar as largadas de touros e recuperar a alegria da festa.

Do frenesim do Montijo para a pacatez de Vila Viçosa há toda uma latitude das emoções que atravessaram o país de norte a sul, do litoral ao interior. Na terra alentejana, Alzira e Maria das Dores, ambas de 90 anos, viveram a profunda dureza de terem ficado fechadas em casa sozinhas durante todo o confinamento.

 

As duas mulheres tinham uma vida muito ativa antes de a pandemia chegar. Viviam à espera da quarta-feira. Era o “sagrado” dia do Chá das Quartas, um grupo de atividades semanais criado pela Conferência de S. Vicente de Paulo de Vila Viçosa e de que fazem parte cerca de 30 mulheres. “Rezávamos o terço, levávamos trabalhinhos para fazer, conversávamos umas com as outras, lanchávamos e depois vínhamos para casa muito contentes”, descreve Maria das Dores.

Dito assim, parece só mais um espaço para a terceira idade (neste caso, quarta). Mas aquele “conversávamos umas com as outras” é de tal forma relevante que estas mulheres deram origem a um livro, editado pela Câmara Municipal de Vila Viçosa em parceria com a Fundação Casa de Bragança, onde está registado o conhecimento popular que não se quer perder – receitas, ditados, orações. Mais: o grupo frequentava palestras e participava com comentários que enriqueciam, por exemplo, a informação histórica disponível acerca dos espaços sociais da vila. Estas mulheres sabem o que é ter um papel ativo na comunidade. E a pandemia levou-lhes muito do que lhes dava sentido à vida.

“Centros da Quercus receberam 437 animais selvagens durante o confinamento”. Foi assim que começou a nossa viagem até ao Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Santo André, na costa alentejana.

O medo afasta, sim, mas o medo também aproxima. E, porque os finais felizes alimentam a esperança que combate o medo, vamos terminar esta viagem com a Francisca, o João e os três filhos. Assustados com a ideia de ficarem fechados num apartamento em Lisboa, refugiaram-se no campo, numa quinta perto de Viana do Castelo, junto dos pais, avós e bisavó. Ao fim de poucos meses, tinham criado vários projetos em família. A Francisca, grávida do quarto filho, ficou responsável por dinamizar atividades para as crianças da vila. O João era o “chefe” da horta. Os miúdos, entre cabeças e dedos partidos, foram crescendo. E para eles, tudo correu bem.

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O que se ouve quando o país pára” é uma série áudio do SAPO24 com entrevistas e fotografia de Margarida Alpuim, edição de som de Pedro Marques dos Santos, ilustração de Rodrigo Mendes e edição de Paulo Rascão.