“Quando educamos uma rapariga, educamos a família, a comunidade e o país”, Francisco Seddoh

O Professor Francisco Seddoh, antigo ministro do Ensino Superior do Togo e membro do Comitê executivo da Unesco em Paris, defende que a educação é crucial para eliminar a descriminação das crianças com deficiência. Seddoh é também ex-director residente da UNESCO em Moçambique e diz que nos países em desenvolvimento, 40% dos jovens com deficiência não frequenta a escola, pese embora a educação da rapariga seja importante. Educar uma rapariga, é educar também a sua família, a comunidade e o próprio país. Acompanhe na íntegra a entrevista feita no âmbito da terceira edição do MOZEFO Young Leaders   

Professor Seddoh, vamos abordar o tema “O conhecimento enquanto catalisador da transformação”. E a primeira pergunta que lhe coloco é a seguinte: qual é a importância do conhecimento e do investimento na formação de jovens nos países em desenvolvimento?

Para responder à sua pergunta, eu gostaria de começar com um provérbio do chinês Lao Tse que todo mundo conhece e diz que “dando peixe a alguém, ele só vai comer por um dia, mas ensiná-lo a pescar permite-lhe ter peixe para o consumo durante a vida”. Portanto, isto mostra a importância da educação. é preciso que nós saibamos que a educação é um investimento. Um ano de estudo suplementar dos jovens aumenta a sua capacidade de rendimento em cerca de 10% e isso é muito importante enquanto investimento para as famílias.

O rendimento que provém do estudo, do mercado de trabalho é bastante elevado e registou aumentou mais que 20% em África e em mais do que 14% em África e no resto do oceano pacífico. E quando investimos um dólar na educação, sobretudo na educação pré-escolar, geramos uma receita de 17 dólares. Não há um investimento mais rentável no mundo do que a educação. A educação tem o seu efeito fantástico, pode ajudar a eliminar o ciclo da descriminação para as crianças com deficiência. Sabemos que nos países em desenvolvimento, 40% dos jovens com deficiência não frequenta a escola. A educação da rapariga também é muito importante. E quando educamos uma rapariga, educamos também a sua família, comunidade e o próprio país.

Portanto, isto mostra todo interesse que existe em investir na educação. Para além disso, podemos acrescentar que a educação pode ajudar a mudar o mundo. Como diz a Parceria Global sobre Educação, cerca de 20 milhões de pessoas sairão da pobreza se tiverem acesso ao ensino secundário e um ano de estudos suplementares pode aumentar a capacidade de receita ou de rendimento das pessoas em cerca de 20%. Quando uma criança tem uma mãe escolarizada, isto dá-lhe 50% de oportunidades de viver mais tempo, para além da idade dos cinco anos. Portanto, tudo isso mostra que a educação é um investimento bastante rentável e vai de acordo com o conhecimento.

Nós sabemos que o mundo é hoje dominado pelo conhecimento e o mercado de trabalho exige novas competências. Se não tivermos essas competências seremos excluídos do mercado de trabalho. Portanto, as mudanças tecnológicas mostram isso e a concorrência a nível mundial impõe que dominemos todas essas competências e que possamos também adquirir as novas. Para além disso, o saber está ligado à noção do conhecimento que é o principal motor da educação baseada na pesquisa científica e inovação. Tudo isto é importante para o desenvolvimento, portanto, investir na educação é bastante rentável. Investir na pesquisa é aumentar ainda mais esse investimento e a criação do saber e da educação estão intimamente ligados e devem ser conduzidos em paralelo.

 

Aos jovens excluídos devido as assimetrias geográficas, que políticas públicas podem ser desenvolvidas para assegurar a sua inclusão e igualdade de oportunidades para a formação?

Bom, para responder à sua pergunta, eu vou fazer referência a uma importante conferência mundial sobre a educação. Baseado na conferência rumo a uma educação inclusiva e equitativa e a uma aprendizagem ao longo da vida, os seus resultados convidam a todos os Estados membros a lutarem contra todas formas de exclusão e de marginalização, assim como, contra as disparidades e desigualdades em matérias de acesso e participação e de resultados de aprendizagem.

Os estados membros assumiram o compromisso de dar a todos os meios necessários, nomeadamente, em termos de definição de políticas para tirar as crianças da exclusão, assistindo sobretudo as crianças desfavorecidas. Esta conferência diz que para tirar as crianças da exclusão é preciso promover o acesso delas à educação. é preciso aproximar a escola das crianças, promover a igualdade de género, rapazes e raparigas, promover uma educação de qualidade e melhorar a qualidade de ensino e aprendizagem. Para tal, é preciso reforçar os processos de avaliação dos resultados e promover, igualmente, as possibilidades de aprendizagem ao longo da vida. A educação de qualidade para todos deve ser, também, obtida a todos os níveis do sistema educativo e este acesso educação deve incluir, também, o ensino técnico profissional e o ensino superior e nós devemos igualmente fazer um esforço para implementar mecanismos de aprendizagem mais flexíveis e mecanismos de reconhecimento de validação desses conhecimentos.

Todos esses elementos que acabo de indicar devem fazer parte das políticas a serem implementadas a nível de cada país para reduzir este fosso de pessoas excluídas na educação e de pessoas que tem acesso à educação e assim promover a educação e a igualdade de oportunidades.

 

Para além das assimetrias geográficas, que papel é que as universidades africanas podem desempenhar na redução do fosso de conhecimento e de oportunidades que decorrem entre as diferentes regiões do nosso continente?

Bom, as universidades fazem parte do sistema educativo, mas nós temos universidades de vários níveis, as universidades mais antigas com mais experiência, que já existiam antes das independências dos países africanos e temos também universidades que foram criadas recentemente, a partir dos anos 70, 80, 90 e outras que estamos a criar actualmente, quase todos os dias, praticamente.

O que é importante para reduzir este fosso, é promover uma extensão de desenvolvimento do ensino superior africano, baseada na solidariedade. É isto que temos que criar, evidentemente que, para isso, temos que dotar a cada universidade de meios suficientes para promover o desenvolvimento ou para promover a formação, a pesquisa e desenvolvimento e também o seu próprio funcionamento e gestão.

Para que as próprias universidades possam participar plenamente ao nível mundial com as outras universidades é preciso que elas tenham fundos próprios. Hoje pode haver uma distinção entre as universidades mais novas e as mais antigas e mais experientes, mas se não existirem programas de formação nas universidades mais recentes, estas podem enviar os seus quadros para seguirem uma formação complementar a nível de mestrado ou doutoramento em diferentes disciplinas que não são ainda bem desenvolvidas em universidades mais recentes.

Igualmente, é preciso investir nos programas de pesquisa conjuntos entre as universidades recentes e as mais antigas, de modo a que estas possam desenvolver teses e programas de pesquisa ou teses co-dirigidas, digamos assim, por pessoas de várias universidades. Temos que instaurar também em vários espaços de ensino superior africano uma política de intercâmbios de circulação de estudantes para se beneficiar das mesmas condições que existem nas universidades de países mais avançados, mais desenvolvidos.

Temos que organizar estágios universitários e nós podemos, como forma de reforçar tudo isso e implementar redes de intercâmbio interuniversitários na área de pesquisa, promoção de associações estudantis, como por exemplo, as Associações das Universidades Africanas, a nível continental mas também das sub-regiões como a CEDEAO, SADC, Comunidade Económica da África Oriental, entre outras. Temos que reforçar o reconhecimento dos diplomas e temos que reforçar também o reconhecimento das experiências adquiridas e criar polos de excelência ao nível do continente africano.

Devemos apoiar projectos como a universidade Pana-africana que foi criada pela União Africana e que visa incluir o conjunto as universidades africanas a nível do continente. Portanto, é preciso que em todas estas acções e estas actividades prestemos atenção na construção de pontes, entre as universidades e o meio profissional e as empresas, sem esquecer que as tecnologias agora podem nos ajudar a acelerar a e fazer melhorias em todos estes aspectos. Os sistemas online são uma alternativa a valorizar por isso mesmo que podemos criar universidades online. Todos estes mecanismos permitem facilitar a cooperação entre as universidades e permitir que elas estejam mais próximas umas das outras, tanto as recentes como as mais antigas.

E nos países do continente africano, há muitas universidades mas a formação superior é bastante difícil, porquê? Como explica esse facto?

O ensino superior é difícil porque não conseguimos criar acesso suficiente para o ensino superior nos nossos países. Por exemplo, em Moçambique existiam apenas oito universidades públicas. Não é fácil permitir o acesso de muitos estudantes mesmo se tivermos uma demanda alta ou elevada a nível do ensino superior. Felizmente, Moçambique fez bastantes progressos e esforços e creio que actualmente as universidades têm cerca de oito mil estudantes, portanto, o facto de não termos muitas escolas do ensino superior é um problema, pelo que é preciso que os países façam um esforço para criar mais universidades, mas não é necessário criar universidades completas, mas sim os principais polos nos grandes centros e depois criar centros associados às principais universidades que podem dar continuidade a nível dos mestrados dos doutoramentos. Assim, as universidades mais periféricas podem formar a nível das licenciaturas, isto pode permitir que se facilite o acesso das pessoas que saem das universidades para o mercado do trabalho e quando continuarem o estudo em universidades mais distantes, os estudantes podem ir a universidades mais desenvolvidas, com mais meios de pesquisa e com mais docentes de nível internacional, isso é importante.

Vendo a situação de Moçambique, acha que as universidades são suficientes?

Ainda não, digamos que Moçambique tem 180 mil estudantes universitários, mas a população é de cerca de 30 milhões de habitantes. Ainda não é suficiente para dar o acesso universal a todos que querem entrar para o ensino superior no país, o que faz com que muitos jovens fiquem de fora embora haja esforços nesse sentido, porque creio que existem mais de 50 instituições de ensino superior no país agora, porém é preciso prosseguir com a criação de universidades fazendo o que eu tinha dito antes que é construir centros universitários mais próximo dos estudantes, próximo de onde residem e universidades mais desenvolvidas nos centros urbanos e isto vai criar uma espécie de uma rede que vai estar à disposição da população moçambicana.

E como é que poderíamos financiar o aceso universal à formação de jovens estudantes nos países onde os recursos são bastante limitados?

O financiamento da educação é um problema importante em todos os países, mas o que nós não podemos esquecer é que a educação é um direito, está consagrado isso. Então, cada país tem o dever de financiar a educação e o acesso universal. Evidentemente que quando esses financiamentos não são suficientes, esses países podem apelar a ajuda internacional para apoiar os países em desenvolvimento. Contudo, o que nós constatamos é que ajuda internacional não tem estado a aumentar nos últimos tempos, há um déficit a nível mundial de cerca de 29 biliões de dólares para o financiamento e vimos que desde 2019, há uma diminuição da ajuda internacional. Portanto, não podemos contar unicamente com essa ajuda internacional. Quando os financiamentos do país, a nível interno são insuficientes e a ajuda internacional não é suficiente, temos que apelar aos pais e encarregados de educação, que devem também dar um complemento para financiar o desenvolvimento da educação. Devem também fazer um esforço para financiar os salários dos professores e a construção de salas de aulas, etc. Sabem que apelar os pais e encarregados de educação não é tarefa fácil porque muitos são pobres e não têm meios suficientes para dar esse contributo, o que pode fazer com que os alunos fiquem longe da escola e a escolarização não vai avançar ao nível que pretenderíamos. Portanto, tudo isto mostra que é necessário um grande esforço conjunto, tanto do governo como da cooperação internacional e também dos pais e encarregados de educação, para fazer com que a educação tenha um financiamento suficiente e permitir o envio das crianças para escola.

 

Agora, onde é que os jovens podem encontrar ou ter acesso ao financiamento para pagar os seus estudos superiores? Será que é o papel dos Estados de apoiar esses esforços ou é de outras instituições ou ainda é um trabalho do Estado com outras instituições em simultâneo?

A Conferência Mundial sobre o Ensino Superior que falei a instantes, em que quase todos Estados do mundo participaram indicou que o financiamento ao ensino superior é de responsabilidade, em primeiro lugar do Governo, porque o ensino superior com o primário e secundário deve ser considerados como um direito, mas nós sabemos que os Estados não têm meios suficientes para o efeito. Para financiar estes esforços é por isso que os Estados aceitam, em parte, a parceria com o sector privado e este vem dar complemento, digamos assim, do financiamento que o Estado precisa. Mas o sector privado não deve substituir o Estado, deve vir dar um apoio e completar o seu papel, mas infelizmente, o que vemos nos países africanos é que o ensino superior aumenta rapidamente, ganha mais espaço enquanto o ensino público não consegue desenvolver ao mesmo ritmo e isto pode criar problemas e o ensino privado pode ocupar maior parte do ensino superior. Vocês sabem que no ensino privado só podem aceder pessoas que têm meios e têm recursos e isso pode contribuir para exclusão de que falávamos anteriormente pelo que todos aqueles que não podem ter acesso ao ensino superior privado ou que tenham espaço no sector público podem criar um problema.

 

Professor Seddoh, na base da sua experiência em Moçambique, quando esteve cá, pensa que a juventude moçambicana pode realizar a transformação do país rumo ao crescimento inclusivo e sustentável?

Sim, claro estou convencido disso, estou inteiramente convencido. Os jovens moçambicanos podem contribuir para o desenvolvimento do seu país. Primeiro, Moçambique é um país que dispõe de grandes potencialidades, tanto em recursos humanos como em recursos naturais. Portanto, na área dos recursos humanos a sorte de Moçambique é de ser um país jovem e quando um país é jovem quer dizer que dispõe da força humana para desenvolve-lo. O que é preciso fazer é desenvolver uma forma adequada para que os jovens possam participar nesse desenvolvimento, uma formação adequada para que os jovens possam participar nesse desenvolvimento e uma política adequada seja implementa nos nossos países.

Eu sei que existe dificuldades nesse momento porque Moçambique como outros países em desenvolvimento, tem uma taxa de analfabetismo e de pobreza bastante elevada e o nível de acesso ao conhecimento não é suficiente. Mas o crescimento demográfico em contrapartida, é bastante alto, o que faz com que tenhamos muito jovens fora do sistema e o desempenho do sistema educativo ainda é bastante fraco.

Estes são os pontos fracos que vemos em Moçambique e em outros países em desenvolvimento, mas temos a sorte de ter igualmente muitos pontos fortes e o primeiro seria a agricultura que absorve cerca 50% da mão-de-obra moçambicana e se for modernizada, se ela deixar de ser de subsistência para se tornar moderna e comercial, isto pode dar um contributo e emprego aos jovens para que se evite o que se vive atualmente, que Moçambique seja obrigado a importar produtos para alimentares para a sua população. É preciso que esforços sejam feitos, introduzir produtos agrícolas que se vendam bem no mercado interno, portanto, a agricultura, na minha opinião, pode ser a grande vantagem de Moçambique.

Em segundo lugar a indústria é um segundo ponto importante. A indústria em Moçambique, neste momento está em desenvolvimento, mas ela emprega somente 3% da população e isso é muito insuficiente. Actualmente temos a indústria açucareira e de alumínio. É o início da industrialização no país, mas nós pensamos que Moçambique deve aumentar a capacidade de industrialização e que vai permitir com que os jovens possam sair da formação para o trabalho e deste modo participar no desenvolvimento do país.

 

O terceiro ponto e forte é o que eu disse anteriormente é que Moçambique dispõe já de bastantes universidade e de escolas de formação superior igualmente importantes. Em 2017diziamos que haviam 54 escolas superiores e universidades e cerca de 80 mil estudantes, portanto, é uma massa crítica importante é uma força, para atingir o desenvolvimento, mas Moçambique também fez um esforço desenvolvendo o ensino técnico e profissional o número de estudantes passou de 45 mil em 2011 para 125 mil em 2015, um número bastante elevado, então, todos esses elementos possa dar um passo para frente e neste caso a juventude, poderia participar em grande medida no desenvolvimento no país, é preciso portanto, resumindo, modernizar a agricultura, há recursos suficientes para aumentar a capacidade agrícola em Moçambique.

Temos terras disponíveis, água disponível, é preciso que as indústrias agroalimentares permitam transformar os produtos agrícolas, para aumentar o seu valor, para dar um valor acrescentado aos produtos e é preciso, também, prosseguir com o desenvolvimento dos recursos mineiros, gás, alumínio e outros, o país não se pode limitar a importar matéria-prima em bruto é preciso fazer a transformação no país, é transformando esses produtos, no país, que eles terão um valor acrescentado e darão trabalho a juventude, permitir que a juventude possa se implicar no desenvolvimento do país. Portanto, tudo isto é possível, se nós tivermos um sistema educativo de qualidade orientado nas necessidades do país e é preciso que o país e as universidades reforcem a questão da boa governação e da boa gestão dos recursos disponíveis, e que ao nível das universidades a questão da boa governação, seja uma cultura. Eu estou convencido que o maior recurso de Moçambique não é o gás, alumínio, o maior recurso de Moçambique é a sua juventude e se essa juventude receber a formação adequada, ela será capaz de criar e inovar e de ter o espírito, num sentido crítico, e nós poderemos contar com essa juventude em grande medida para a modernização e desenvolvimento de Moçambique, que é um país, que é bastante querido por nós.

 

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1 Resultado

  1. Salomao disse:

    Nao adiantou nada perdeu o seu tempo
    O ditado diz a adivida nao a podrece

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