Moçambique vai testar eficácia da vacina da tuberculose no combate à COVID-19

Num contexto em que o mundo está numa corrida frenética em busca de soluções para travar mortes causadas pela Covid-19, Moçambique, através do Centro de Investigação em Saúde da Manhiça, em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane, irá iniciar, este mês, um ensaio clínico para avaliar o uso da vacina BCG para o combate à COVID-19.

“A escolha desta vacina veio do facto de, na área científica, se ter notado que nos países do sul da Ásia e de África que usam esta vacina, a incidência da COVID-19 ter sido reduzida, se comparada a outros países que o uso da BCG foi descontinuada. Daí, levantou-se a hipótese que esta vacina pode ser um factor protector para a COVID-19”, revelou Hélio Mucavel, Coordenador da Área das Doenças Respiratórias, no centro de pesquisa.

Entretanto, o pesquisador não deixou de recordar que se “trata de uma hipótese. Dentro dessa possibilidade podem existir outros factores de “confusão” que nos podem estar a levar a esse entendimento. Para o efeito, iremos fazer este estudo num ambiente controlado, através de um ensaio clínico”.

Segundo o centro, além de prevenir a tuberculose, a vacina BCG já mostrou conter efeitos protectores benéficos para outras infecções. No referido estudo participaram 350 profissionais de saúde, que são o grupo mais exposto à doença.

“Iremos pegar esse número de profissionais e dividir em dois grupos. Num iremos administrar a vacina e noutro iremos administrar o soro fisiológico (substância que não produz nenhuma acção) e vamos estudar esses grupos por seis meses. Escolhemos os profissionais de saúde porque são o grupo que está na linha-da-frente do combate à doença. Mais do que isso, surgiu outra hipótese de que a BCG pode reduzir, em cerca de 20 por cento, o absentismo laboral por doença dos profissionais de saúde”.

Quando questionado se a vacina servirá para prevenir ou para combater a doença, Mucavel respondeu nos seguintes termos: “Geralmente as vacinas têm a função de prevenir a ocorrência de doenças, mas por outro, uma vez contraída a doença ou infecção ela pode permitir que o paciente não tenha sintomas graves”.

Além de Moçambique, o mesmo estudo foi desenvolvido em Cabo Verde e na Guiné-Bissau e conta com o apadrinhamento de  vários parceiros.

“Cada país terá a sua velocidade. O estudo tem que passar pelo Comité de Ética de cada país (uma entidade independente que presta assessoria aos ministérios da saúde), e só depois da chancelaria do governo é que se avança para a pesquisa. Na Guiné-Bissau, por exemplo, já estão mais adiantados e começaram com o recrutamento. No caso de Moçambique, estamos no passo final, que é ter a aceitação do Comité de Ética. Precisamos acertar alguns requisitos da nossa parte como centro, para que na melhor das hipóteses começarmos o estudo ainda este mês”, concluiu.

Ao todo, o estudo irá abranger 1.200 profissionais de saúde dos três países, sendo que em Moçambique, numa primeira fase, farão parte das pesquisas sete investigadores.

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