Moçambique: “Ossufo Momade foi erro de ‘casting’ da RENAMO”

Em entrevista à DW África, o analista moçambicano Lourenço do Rosário avisa que as contestações à liderança da RENAMO têm que ser levadas a sério, caso o partido não queira “ditar o seu próprio fim”.

O académico moçambicano Lourenço do Rosário acredita que as críticas internas no maior partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), à liderança do Ossufo Momade não podem continuar a ser ignoradas pelo maior partido da oposição. Do Rosário, que foi mediador nas negociação de paz entre a RENAMO e o Governo que se saldaram pelo acordo de 6 de agosto de 2019, diz que Momade não tem o carisma necessário para unificar o partido. A DW conversou com o académico.

DW África: Como avalia as contestações internas dentro da RENAMO ao líder do partido, Ossufo Momade?

Lourenço do Rosário (LdD): Verificamos que não só nas matas, com Mariano Nhongo, mas alguns militantes na cidade de Tete, já se manifestam contra o atual presidente. Portanto, a RENAMO está a cair aos bocados. E não é, neste momento, uma força, que possa, por si só, resolver este problema. É preciso que haja um movimento de coesão interna. A coesão exige que os órgãos sociais que saíram do congresso da RENAMO, que elegeram Ossufo Momade, tenham a capacidade de reunir e tentar encontrar um roteiro para poder resolver os problemas que a RENAMO está a ter neste momento.

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DW África: O que está por detrás destas contestações?

LdD: Por aquilo que eu conheço do discurso de Afonso Dhlakama, por aquilo que eu conheço do pouco contacto que tive com Mariano Nhongo, por aquilo que eu conheço de alguns líderes que não estão nas matas, mas que contestam a liderança de Ossufo Momade, não se trata de um líder que consiga neste momento, congregar uma unanimidade dentro da RENAMO.

DW África: Na zona centro do país ocorrem ataques armados atribuídos à Junta Militar da RENAMO de Mário Nhongo. Que análise faz destes ataques?

LdD: Eu sempre desconfiei, depois da assinatura do acordo de paz de 6 de Agosto [de 2019], que este processo fosse líquido, na medida em que nem todas as coisas estavam tranquilas. E do ponto de vista do processo eleitoral, depois da morte de Dhlakama, quando Ossufo Momade é apresentado como coordenador para preparar o partido para o congresso, houve nitidamente um erro de “casting”. Ossufo Momade não era carismático de modo a poder dominar, como dominava Afonso Dhlkama, a ala militar e a ala política.

DW África: Como devem ser tratadas as reivindicações de Mariano Nhongo?

LdD: Acho que os órgãos sociais da RENAMO devem ter a coragem de convocar um conselho nacional e refletirem sobre esta questão; e não continuarem a assobiar para o lado, como se o problema não fosse deles. O problema é deles. Se a RENAMO civil continuar a dizer que o Nhongo é desertor, que não é problema deles, e por aí diante, e se o Presidente da República ou o Governo de Moçambique resolverem começar a conversar com o Nhongo, é o fim da RENAMO civil. Fica completamente desacreditada. E o Nhongo pode ganhar uma dimensão política que neste momento não tem. Acho que a RENAMO está numa encruzilhada bastante grande, e que pode, perfeitamente, ditar o seu próprio fim.

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