Investigadores moçambicanos estão a desenvolver Mapa de Risco Climático

Um grupo de pesquisadores moçambicanos está a desenvolver o Mapa de Risco Climático de Moçambique. O projeto começa pelas cidades da Beira e Maputo mas pretende estudar mais urbes vulneráveis a desastres naturais.

O geógrafo José Langa é um dos rostos do projeto, que deverá estar concluído em junho. Langa diz que o país, sendo um dos mais afetados pelas mudanças climáticas, deve começar a apostar seriamente na diplomacia ambiental junto das Nações Unidas.

DW África: O que viria acrescentar um mapa de risco climático em Moçambique?

José Langa (JL): A ideia é fazer um instrumento para tomada de decisão. É preciso que nós elaboremos um mapa usando conhecimento local, envolver as comunidades [para que], a partir desse instrumento, elas possam tomar uma decisão quando estiverem em situação de vulnerabilidade.

DW África: Acha que, neste momento, não há recursos suficientes para previsão de catástrofes no país?

JL: Não basta somente que nós tenhamos previsões quase assertivas. É preciso que essas informações gerem conhecimento e acima de tudo autonomia nas comunidades. O problema não é a priori a questão de falta de recursos, mas é preciso que essa previsão seja recebida e principalmente que as pessoas usem essas informações para tomarem decisões.

DW África: O que tem estado a falhar para que as comunidades estejam envolvidas neste processo de prevenção dos efeitos dramáticos das catástrofes?

JL: A primeira, a educação, sob o ponto de vista de experiência e vivência das comunidades. Temos de levar esse conhecimento para as escolas, fazer essas temáticas importantes para o processo de formação.

O segundo ponto, a nossa capacidade de resposta a essas situações é um problema. Nós temos hoje situações de pessoas que ainda estão expostas à vulnerabilidade depois do Idai. Essas mesmas pessoas passaram agora pelo Chalane e pelo Eloise. Temos um problema sério de capacidade de resposta e é aqui que acredito que faz sentido a metodologia que nós estamos a tentar criar para pensar as mudanças climáticas. Para que as crianças que hoje estão na escola cresçam com conhecimento e tomem decisões que as vão tirar de uma situação de vulnerabilidade ambiental.

Em terceiro, a tecnologia: precisamos investir mais em tecnologias ambientais. Tanto de previsão de risco como também para pensar instrumentos para tomar as decisões. Nós hoje temos a internet e toda a gente tem um telefone. Por que não pensarmos em sistemas de autonomia que nos dão liberdade para decidir perante os eventos?

DW África: O que é que Moçambique tem de fazer para que os impactos dos eventos climáticos não sejam muito dramáticos?

JL: Se nós tivéssemos capacidade de resposta, se tivéssemos como, a partir de um sinal de alerta de enchente, evacuar as pessoas do local e dar uma acomodação segura, garantir que depois desse evento as pessoas não voltassem para aquela zona de vulnerabilidade, nós íamos começar a reduzir o risco. Mas o grande problema das mudanças climáticas acaba por passar por um debate sobre diplomacia climática. Moçambique, apesar de ser um dos países mais dispostos à vulnerabilidade ambiental, é o país que menos participa do debate climático mundial.

DW África: Moçambique está a conseguir ter essa proatividade e encontrar o seu espaço neste debate climático?

JL: Era necessário, por exemplo, no próximo evento que vamos ter sobre o clima, garantir-se espaço para os países com mais vulnerabilidade apresentarem aquilo que é a sua visão sobre mudanças climáticas. Nós não temos espaço e voz. Isso acontece pela lógica capitalista de que quem decide nos eventos internacionais é quem produz mais, é quem tem espaço. A lógica das Nações Unidas é isso. Há países que têm mais poder do que outros e é preciso pensar a questão da inclusão das questões climáticas nos países menos desenvolvidos. Apesar de não sermos quem provoca somos os mais afetados.

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Você pode gostar...

Deixe seu comentário