Força policial na detenção “maior do que George Floyd podia suportar”

O médico legista que classificou de homicídio a morte de George Floyd testemunhou hoje em tribunal que a força policial usada contra o afro-americano foi “mais do que podia suportar”, dados os seus problemas de saúde.

Andrew Baker, médico legista do condado de Hennepin, foi hoje a principal testemunha no julgamento do ex-polícia Derek Chauvin, acusado da morte do afro-americano em maio de 2020, que causou motins raciais em todos os Estados Unidos.

Questionado sobre o seu parecer de que a “submissão, contenção e compressão do pescoço” de Floyd levou à sua morte, Baker disse que a vítima tinha uma doença cardíaca grave subjacente e um coração dilatado que precisava de mais oxigénio do que o normal, e ainda estreitamento de duas artérias cardíacas.

Baker disse que o envolvimento numa luta física aumenta a adrenalina, o que faz o coração bater ainda mais rápido e bombear mais oxigénio.

“Em minha opinião, a submissão, a contenção e a compressão do pescoço eram mais do que o Sr. Floyd poderia suportar, em virtude daquelas condições cardíacas”, disse o médico legista.

A defesa de Chauvin baseia-se no facto de o agente ter seguido o que o treino policial prescreve e que a morte de Floyd se deveu ao consumo excessivo de drogas e não a asfixia causada pela pressão sobre o seu pescoço.

As imagens da detenção de Floyd, com Chauvin a pressionar o pescoço por mais de nove minutos, apesar de o detido gritar “não consigo respirar”, causaram motins em todos os Estados Unidos no verão passado, com a vítima a tornar-se símbolo da violência policial contra os afro-americanos.

Questionado pela defesa de Chauvin, Baker disse que a doença cardíaca, conjugada com o uso de drogas, “teve um papel” na morte de Floyd, mas recusou que essa tenha sido a causa de morte.

Baker testemunhou que seu exame do coração de Floyd não encontrou nenhum “dano prévio visível ou microscópico” no músculo cardíaco e que também não identificou qualquer lesão no cérebro por trauma ou privação de oxigénio.

Lindsey Thomas, uma patologista forense aposentada do Gabinete de Medicina Legal do Condado de Hennepin, testemunhou também hoje que concorda com as conclusões de Baker, sendo ainda mais explícita ao dizer que o “mecanismo primário de morte” foi asfixia ou falta de oxigénio.

Na quinta-feira, o médico Martin Tobin testemunhou também que Floyd morreu devido aos baixos níveis de oxigénio no sangue.

O perito, que se apoiou em gráficos e imagens de vídeo, sublinhou que a forma como Floyd foi algemado e a posição em que Chauvin o imobilizou no solo criou uma espécie de torniquete que afetou a respiração.

Derek Chauvin está acusado dos crimes de assassínio em segundo grau, punido com pena até 40 anos de prisão, assassínio em terceiro grau, com uma pena máxima de 25 anos, e homicídio em segundo grau, que implica até 10 anos de privação da liberdade.

No entanto, como não tem antecedentes penais, só poderá ser condenado a um máximo de 12 anos e meio de prisão pelos primeiros dois crimes e a quatro anos de prisão pelo terceiro.

Os outros três polícias que participaram na detenção – Alexander Kueng, Thomas Lane e Tou Thao – serão julgados em agosto, acusados de cumplicidade no homicídio.

Esta semana, os jurados ouviram também especialistas em treino policial, incluindo o instrutor de uso de força na Polícia de Minneapolis, tenente Johnny Mercil.

Este testemunhou que o procedimento treinado é pressionar o joelho contra as costas ou ombro, evitando o pescoço “quando possível”.

Também hoje, os jurados do julgamento de Chauvin ouviram o testemunho do sargento Ker Yang, responsável da Polícia de Minneapolis para treino de intervenção de crise, que afirmou que a política transmitida aos agentes é de “abrandar as coisas, reavaliar e repensar”.

É esperado um veredicto para o ex-agente no fim de abril ou no início de maio.

Também esta semana, o chefe da Polícia de Minneapolis, Medaria Arradondo, afirmou que pressionar o pescoço do detido com o joelho depois de este estar algemado e de borco, como fez o ex-agente, “não é de alguma maneira, forma ou feitio” parte das normas ou treino policial.

“Certamente que não é parte da nossa ética e valores”, adiantou Arradondo, que na sequência da morte de Floyd em 2020 demitiu Chauvin e os outros três agentes que o acompanhavam.

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