ira, no âmbito do 43.º FIMUV – Festival Internacional de Música de Paços de Brandão, o músico vai atuar com “duas referências da música erudita nacional”: Irene Lima, “violoncelista brilhante” com quem já trabalhou várias vezes ao longo da vida, e Vasco Dantas, que “só tem uns 30 anos e já é um grande pianista”.

A reunião dos três intérpretes surgiu por iniciativa de Augusto Trindade, que, enquanto diretor artístico do FIMUV, defende que o espetáculo será “um marco histórico não só do evento, mas também do panorama musical português”, na medida em que, por um lado, “António Saiote tem uma carreira consagradíssima como artista e pedagogo” e, por outro, “é a primeira vez que estes três músicos, de gerações distintas e calibre unanimemente reconhecido, se reúnem em palco para atuar em conjunto”.

António Saiote reconhece que “a ocasião é especial”, mas nota, com humor, que a sua pré-estreia até se deu sem instrumentos, quando, aos 6 anos de idade, se pôs “em cima de uma cadeira para cantar ‘Quero que vá tudo p’ro inferno’, de Roberto Carlos”. O arranque efetivo da sua carreira seria pouco depois, aos 10 anos e já mais sério, a tocar clarinete na Banda dos Bombeiros Voluntários de Loures.

Essa escolha foi uma opção estratégica do seu pai, que assim esperava que o talento musical do jovem músico o mantivesse “afastado da Guerra do Ultramar” e, com isso, acabou por determinar o seu rumo de vida. António Saiote concluiu o Meisterdiplom em Clarinete da Hochshule de Munique (na Alemanha), tirou um mestrado em Direção de Orquestra pela Universidade de Sheffield (no Reino Unido) e completou a pós-graduação em Direção de Música no Século XX pela Universidade de Alcalá de Henares (em Espanha), sendo que entretanto já atuou, dirigiu e ensinou “em mais de 40 países”.

Em palco, o maestro, clarinetista e professor da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) revela-se ainda filósofo e historiador, quando comenta com o público detalhes sobre o contexto social na origem de determinada composição ou analisa o que considera as falhas de determinada política cultural ou económica.

“O clarinete sempre foi um pretexto para formar cidadãos”, defende António Saiote em entrevista à Lusa. “Costumo dizer que 90% dos músicos podiam ter seguido qualquer outra profissão, mas mantemo-nos nesta atividade por paixão, por devoção, amor, e é ao ver mundo e ao contactar com as pessoas que nos formamos a nós e formamos também o nosso público”, afirma.

António Saiote lamenta, contudo, que Portugal não tenha mudado tanto quanto desejaria nestes 50 anos. Agora há “mais e melhores intérpretes”, a escola portuguesa de clarinete tornou-se “reputada a nível mundial e é rara a orquestra nacional estrangeira onde não haja um português entre os primeiros três clarinetistas”, mas, dentro de portas, esse instrumento “ainda é desvalorizado e recebe muito menos atenção do que o de alguém que, embora com menos mérito, toque violino ou piano”.

É por isso que o músico e pedagogo afirma: “Somos um país de snobs. Quem não é filho de ministro ou de famílias da Linha do Estoril tem que andar a pedinchar e a alinhar em jogadas, porque ainda há muito elitismo por cá, o 25 de Abril não resolveu tudo e falta aos governos de turno conhecimento e transparência para distribuírem os fundos públicos da Cultura de forma séria e racional”.

A análise continua: “As verbas do Governo central perdem-se pelo caminho, são desviadas para televisões e projetos faraónicos, e nunca chegam às autarquias, onde efetivamente podiam ser aplicadas em formação e em programação. Falta-nos uma concorrência sã. Pouca gente aqui tem ‘mundo’ para saber fazer mais e melhor”.

Insistindo que “os músicos não percebem apenas de música” e são profissionais “bem formados, com conhecimento vasto sobre diferentes realidades”, António Saiote critica assim uma certa “inversão de valores” que favorece o “estrelato sem conteúdo”, opõe-se ao mediatismo que atribui reputação internacional a “figuras que lá fora ninguém conhece” e aconselha os seus alunos e outros artistas a não se deixarem desincentivar.

“O que lhes costumo dizer é que, de Badajoz em diante, não interessa que nome eles têm nem se o pai deles trabalha numa fábrica ou nos serviços de luz e águas, como o meu. Lá fora cada um só vale pelo que é, pelo que sabe e pelo que faz”, garante.

Entretanto, o clarinetista está a preparar um novo disco, que, se não sofrer mais atrasos devido à pandemia de covid-19, deverá ser lançado em dezembro. O músico também tem na calha novos projetos artísticos com entidades estrangeiras, mas, adiando detalhes para o momento da sua concretização formal, revela apenas que essas parcerias envolvem “países da Ásia, onde a idade é um posto e não uma desvantagem”.