Acho Que Vais Gostar Disto: O dia em que a Dinamarca mudou

Olá! Passados mais de seis meses, chegámos à edição 50 desta newsletter. Têm sido muitas sugestões de filmes, séries, documentários (e canais de YouTube por parte da Mariana Santos), que esperamos que continuem a chegar todas as terças e sextas à caixa do teu email. Como celebração, vamos iniciar um passatempo. Mas… calma! Vamos falar primeiro das recomendações. Hoje, trago um sucesso da Broadway que chegou à nossa televisão, uma série que mudou a política dinamarquesa e ainda uma série sobre como fazer milhões. Para leres de seguida!

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Um início diferente da América

E se os pais fundadores dos EUA que assinaram a Declaração da Independência em 1776 fossem latinos e afro-americanos? Foi essa a premissa de Lin-Manuel Miranda, ator americano com origens porto-riquenhas, que escreveu a história e as músicas que compõem “Hamilton”, o musical que se tornou o maior sucesso da Broadway da última década. Além da versão ficcionada das origens da América, outro aspeto peculiar sobre esta peça é o estilo musical adotado – o hip hop. Todas as personagens avançam a sua narrativa “rappando” versos que se centram essencialmente nos seus ideais políticos e na forma como vêem o futuro do país que estão a tentar criar.

A personagem principal do espetáculo é Alexander Hamilton, protagonizado por Miranda, um imigrante vindo das Caraíbas que, depois de ter ficado órfão, foi para a América e fez todos os sacrifícios para se educar em diversos ofícios. Posteriormente, junta-se a um grupo de revolucionários anti-britânicos em meados do século XVIII, onde encontra um tal de George Washington, o general que, quer nesta versão ficcionada, quer na “história com H grande”, levou a que os EUA se formassem enquanto nação. Também caracterizado pela sua inteligência, mestria e capacidade de combate e liderança, Hamilton torna-se braço direito de Washington e terá um papel crucial na independência americana.

“Acho Que Vais Gostar Disto” é uma rubrica do SAPO24 em que sugerimos o que ver, ler e ouvir.

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Contudo, a subida na cadeia do poder não é feita sem um adversário. O seu  nome é Aaron Burr, um homem igualmente inteligente, que começa como mentor de Hamilton no início da sua carreira militar e política, e que depois fica progressivamente incomodado com o sucesso do seu aprendiz e da sua capacidade de contagiar outras pessoas com as suas ideias políticas e visão do mundo.

Em comparação com outro bonito espetáculo político que pudemos assistir na madrugada de quarta-feira, foi bom ver um palco com intervenientes capazes de debater perspetivas diferentes sobre rumos para um país de uma forma coerente, interessante e respeitadora. Enquanto no primeiro vimos interrupções e ataques pessoais constantes, em “Hamilton” podemos ver Alexander e Thomas Jefferson em modo “rap freestyle” para ver quem tem o melhor argumento. Eu sei qual é que prefiro, e tu?

  • Onde ver: a peça tem 2h40 e está disponível no Disney+.
  •  Quando a política não é só uma construção de Legos

    A expressão “fazer castelos de legos” fez parte de todas as nossas infâncias antes dos smartphones e tablets se terem tornado num brinquedo mais apelativo para crianças a partir dos cinco anos. Com eles, podíamos criar uma réplica de todas as coisas que adorávamos: um barco de piratas, uma nave do Star Wars, a nossa casa do futuro ou apenas algo abstrato que só para nós fazia sentido.

    A série “Borgen”, tal como os Legos, tornou-se na última década numa das exportações dinamarquesas mais famosas, chegando a audiências espalhadas pelo mundo inteiro, na onda de produções nórdicas que passaram a entrar no radar e ganhar reconhecimento de canais e de plataformas de streaming. Na sua essência, os dois acabaram por ter o mesmo efeito: permitiram tornar real algo que foi imaginado ou que passou pelos nossos olhos. Passo a explicar.

    Até 2010, ano em que a série estreou a sua primeira temporada, a Dinamarca nunca tinha tido uma primeira-ministra. O país, que sempre foi considerado um dos mais avançados do mundo (e o mais feliz de acordo com várias publicações) tinha sido sempre liderado por homens, facto que levou Adam Price, criador de “Borgen”, a imaginar uma narrativa que levasse uma mulher a formar governo no parlamento, também conhecido por… Borgen (um diminutivo para o Palácio de Christiansborg, em Copenhaga, onde está localizado).

  • Assim nasceu a personagem Birgitte Nyborg, líder feminina do Partido dos Moderados que nas eleições de 2010, depois de uma sucessão de eventos, passa de um partido pelo qual ninguém dava nada para o único capaz de forma uma coligação para governar o país. Ao leme do país, Nyborg enfrenta desafios de consenso político com partidos parceiros, partidos de oposição e com os media, mas não só. No plano familiar, vai vendo o trabalho que sempre sonhou roubar-lhe tempo com as pessoas de quem mais gosta, tornando o “work-life balance” numa hashtag que provavelmente encontra apenas em posts de Linkedin.

    Voltando à realidade, a 3 de outubro de 2011, uma semana depois de ter estreado a segunda temporada da série, Helle Thorning-Shmidt foi eleita a primeira primeira-ministra na Dinamarca, o que não deixa de ser uma coincidência enorme dado o sucesso que “Borgen” teve. Diversas publicações, apressaram-se a encontrar uma relação causa-efeito, mas os envolvidos na série sempre se afastaram de qualquer tipo de responsabilidades. Nada como testar a fórmula noutros países com séries do mesmo género e ver o que acontece.

    • Caras conhecidas: deverás reconhecer a atriz que faz de Birgitte como Theresa Cullen de “Westworld” e o seu assessor de imprensa como Euron Greyjoy uma das personagens maléficas de “A Guerra dos Tronos”.
    • Pode uma série ser estúpida de forma inteligente?

      Esta pergunta paradoxal pode ser respondida começando por explicar o argumento de “Billions”, série transmitida nos canais TV Cine. Imaginem dois homens: de um lado Bobby Axelrod (Damian Lewis), um bilionário, líder de um fundo de investimento que veio do nada e fez fortuna com uma aposta contra a economia americana nos mercados financeiros, na altura do atentado às Torres Gémeas; do outro Chuck Rhoades (Paul Giamatti), um dos principais procuradores-gerais de Nova Iorque, que sempre teve uma vida e uma educação abastada graças à riqueza que a sua família já tinha, e que sempre ansiou subir o máximo que conseguia na sua carreira política para poder provar que nem tudo lhe foi dado.

    • Axelrod entra em todo o tipo de esquemas para se manter interessado “no jogo” e continuar a aumentar a sua riqueza, desde insider trading a promiscuidade com políticos e negócios públicos; Chuck mascara-se como paladino da justiça, que quer condenar Axelrod e outros como ele mas, na realidade, qualquer perseguição que decide fazer é um movimento calculado consoante os ganhos políticos que isso lhe pode trazer.

      Até aqui nada de estranho certo? Apenas dois homens privilegiados à procura de manter a sua vida interessante, cada um à sua maneira. Onde a história ganha contornos difíceis de aceitar (ao início) é com a personagem de Wendy (Maggie Siff), que simultaneamente é a maior confidente de Axelrod, trabalhando como terapeuta na sua empresa, e mulher de Rhoades. Compreendo que seja complicado conceber para quem está a ler, como é que uma série justifica o limbo em que esta personagem tem de andar numa história baseada no confronto entre duas personagens que lhe são igualmente próximas. É aqui que está a parte inteligente.

      “Billions” não se leva muito a sério. Não está preocupada com grandes evoluções nas personagens nem com momentos de redenção. As personagens são como são e a forma como se modificam está sempre dependente dos planos que têm em mente. A série está muito mais preocupada em montar esquemas interessantes que nos agarrem ao ecrã e em ligá-los entre as diversas personagens, deixando um pouco de parte o seu desenvolvimento. Isto leva a que raramente haja “tempos mortos” e que, no meio de toda a carnificina, nos esqueçamos das coisas que se calhar não fazem assim tanto sentido.

      • Uma espécie de intervenção social: “Billions” não é, de todo, uma história que tenta marcar algum tipo de posição ou passar uma mensagem na agenda política, mas tornou-se na primeira série a incluir uma personagem regular não-binária (sem género definido) protagonizada pela atriz Asa Kate Dillon, que eventualmente se torna numa das protagonistas.
      • O que já disseram da série: as expressões que mais gostei vieram do The Guardian, que lhe chamou “the smartest stupid show on TV” (a série mais esperta a ser estúpida) e do San Francisco Chronicle, que a designou como “lixo com prestígio”.
      • Renovada: Com apenas sete episódios disponíveis da quinta temporada, que foi interrompida pela pandemia, foi ontem confirmado que, mesmo assim, teremos direito a uma sexta.
      • Para mais programas dos canais TV Cine: podes ver toda a programação aqui.
      • 50 edições significam 1 ano de filmes e séries

        Para celebrarmos a edição número 50 da nossa newsletter, vamos lançar um passatempo que vai decorrer durante todo o mês de outubro no qual te podes habilitar a GANHAR 1 ANO DE NETFLIX (com dois cartões de oferta de 50 euros)!

        Mais umas semanas, o frio regressa e os programas de sofá voltarão a fazer parte da tua rotina, por isso, esta é a melhor altura para começares a fazer a tua lista das séries e filmes que te vão fazer companhia.

        Para participares, basta ires a este link e fazeres três coisas:

        • Subscrever a newsletter (para muitos o primeiro passo está feito)
        • Seguir o Instagram do Acho Que Vais Gostar Disto
        • Responder à pergunta “Se só pudesses ver uma série o resto da tua vida, qual seria e porquê?”

        Quem sabe se, no próximo ano, até não és tu a fazer-nos as recomendações!

        Nota: a Netflix não patrocina o passatempo, nem tem qualquer tipo de afiliação à newsletter.

        Créditos Finais

        • O teu festival ideal: Festivais de música só em 2021, mas o site Festify já elabora o teu cartaz ideal com base naquilo que ouves no Spotify. Para veres, basta fazeres login com a tua conta da plataforma de streaming.

        Tens recomendações de coisas que eu podia gostar? Ou uma review de um dos conteúdos que falei? Envia para [email protected]

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